domingo, 16 de novembro de 2014

o peso da noite é o peso das perguntas que não têm resposta.
a noite pertence aos doentes, aos culpados, aos inquietos, não há forma de nos libertarmos da sua maldade.
pode-se acender uma luz, ler um livro, procurar na rádio uma  voz reconfortante, falar com alguém que amamos mas a noite continua à espreita.
viemos do escuro, ao escuro voltaremos e escuro era o espaço antes de o universo ganhar forma. talvez seja por isso que as cidades estejam cada vez mais iluminadas e cheias de atrações para que a qualquer hora da noite se quisermos podemos comer, comprar qualquer coisa e nos distrair.
o silêncio e a escuridão estão guardados para os nossos momentos de insónia.  quando finalmente o nosso corpo cede à fisiologia para depois despertar no dia seguinte apagamos e acordamos diante de um ecrã iluminado com um telecomando manuseado por nós e apenas por nós.
"bruna acreditas em quê?", no silêncio da noite dou voltas e mais voltas na cama sem conseguir sossegar e adormecer enquanto que esta pergunta paira no ar arrastando com ela ainda outra "por quê vives?".
acredito em quê e vivo porquê?
continuo a achar que a cada criança que  nasça deveria ser entregue um pergaminho com estas duas perguntas no topo da página , com um espaço por cima suficiente para o tempo que vão ter para viver. depois teriam de se apresentar com esse mesmo pergaminho com todas as ações praticadas durante a vida lá preenchidas quando morressem.
a verdade é que se eliminamos a noite e o silêncio deixa de existir espaço para as perguntas e essa é a função do pergaminho, para cada criança que nasça não pense que é um objeto entre muitos outros e até o mais perfeito saberia que o que o mantém acordado não é nenhuma doença mas sim a sua natureza porque a capacidade de interrogação é própria do ser humano e de mais ninguém.
uma criança que nasce não é um quadro branco onde se pode escrever seja o que for, mas sim uma toalha onde alguém já traçou um bordado, será que irá percorrer esse caminho já traçado por outros ou será que escolherá um caminho diferente? continuará a caminhar sobre as pegadas de alguém ou terá coragem para sair delas a pés juntos? será que esta vida é mesmo só nossa? será que este é o primeiro e ultimo espaço de luz que nos é dado para percorrer? não será uma enorme injustiça  apostarmos tudo numa única existência? compreender, não compreender, concordar, discordar?
o nascimento e a mortes estão separados por uma única batida. temos que nos manter calados e cair na morte como um castelo de cartas que em silêncio volta a cair sobre si mesmo?
e quem decide os papeis antes da representação? com que papel fiquei eu? o de vítima ou o de vilã? ou será que tudo não passa de uma sequência de altos e baixos?
matar ou ser morto, quem é que decide?
talvez quem está no cone da luz. e os que estão na sombra o que fazem? e eu em que lado do palco estou? entrar, sair, esquecer-me da fala, enganar-me..
e o universo? será apenas minerais , líquidos, proteínas, larvas esbranquiçadas que se estrebucham devoram e são devoradas? até mesmo a larva tem a transformação dos tecidos moles, dela pode sair a inesperada e tão bela borboleta. e se a palavra mágica fosse mesmo transformação ? e se a escuridão existe justamente para acolher a luz?
nos dias de hoje espalha-se a ideia de que as crianças para serem felizes precisam de ter tudo, saber línguas e ter jogos de computador, as pessoas não percebem que para nos pormos a caminho precisamos de sentir saudades de qualquer coisa. se eu tirar a luz a uma planta ela juntará todas as suas forças para conseguir reencontra-la e quando o fizer a planta estará mais forte porque ao se deparar com uma adversidade conseguiu supera-la.
agora falando de plantas era bom se as pessoas começassem a pensar mais nas  árvores, era bom que aprendessem a tratar delas e a agradecer-lhes porque é a sua respiração que nos permite respirar.
o que mete mais medo nos dias de hoje é o sentimento de poder que se está a espalhar. o Homem está convencido de que pode fazer tudo porque vive num mundo artificial construído por ele próprio, mas os que cultivam plantas sabem perfeitamente que não é nada assim. se não chover durante dias ou até meses a certa altura a seca vai abrir fendas na terra e as plantas morrerão e com as plantas os animais. o Homem não pode fabricar água, tal como não pode fabricar oxigénio, por isso, o Homem está dependente de qualquer coisa que não está nas suas mãos. se o mar ultrapassar a sua margem varre-nos, se aparecer uma praga de gafanhotos as colheitas serão devoradas, só que o Homem fechado no meio das luzes artificiais já não sabe que é assim.
o único horizonte certo para o Homem é o conhecido e o que está sobre o seu domínio, cura cada vez mais doenças mas depois congela, porcos vivos para saber se é possível  adormecer e acordar muitas vezes num espaço de tempo alterado para poder fingir  que morre e voltar a renascer. algures no mundo deve existir um frigorífico enorme onde estão metidas peças sobressalentes em vez de ervilhas há rótulas, mãos , tendões e olhos , estão ali à espera de serem substituídos como portas e volantes de um carro numa oficina.

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